Cascalho pelo Mundo

Bem-vindo a bordo!

Cascalho around the world

welcome to our World!

Cascalho pelo Mundo

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The best blue!

Bem-vindo a bordo do Cascalho pelo Mundo

Foi logo que começamos a namorar... queríamos viver a vida mais intensamente e dar asas a uma paixão comum: viajar e conhecer os quatro cantos do mundo. E decidimos que faríamos isso a bordo de um veleiro e, mais ainda, que buscaríamos este veleiro na Itália. Com 600 euros no bolso, partimos. Durante muitos anos na Itália, trabalhamos para juntar dinheiro e depois, começamos a procurar o barco que viria a ser a nossa casa... quando encontramos o Cascalho, não tivemos dúvidas... era ele !!! Tínhamos encontrado a nossa casa. Não precisávamos mais sonhar esta parte. A partir daí, foi só viver o sonho, dar ao nosso barco-casa a nossa cara e com ele viver a vela pelos quatro cantos do mundo. Exatamente como tínhamos sonhado...
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De Gran Canária à Ilha do Sal, Cabo Verde

Hora de partir, feliz e confiante !!! SPOT !!!
Um depois do outro...
Boa viagem !!!
Tantos barcos atrás de nós...
Mas muitos mais a nossa frente !!!
Apesar dos diversos tons de cinza...
...existe a promessa...
...de que o sol dê o ar da sua graça !!!
Las Palmas vai ficando para trás.
Vários ângulos !!! Várias perspectivas !!!
Mar formado e bons ventos !!!
Depois que os participantes da ARC tomaram a direção dos Portões de Colombo,
pouquíssimos sinais de civilização foram avistados.
O mar continuava judiando... 850 mn dentro de um liquidificador !!!
Ao longo de todo os trajeto, peixes só voadores.
Quantos são necessários para cinco pessoas !!!
Para alívio da tripulação, as 14:00h do dia 02 de dezembro... Terra  a  vista !!!
Chegando perto... cada vez mais !!!
Paisagem árida...
...de aspecto quase lunar. Estávamos um pouco assustados !!!
Mais tarde descobrimos que este é um dos mais badalados restaurantes da ilha.
Sal aí vamos nós !!!


27 de novembro de 2012
Latitude 28°8'29"N e Longitude -015°26'48"W
11:00h

Partimos... deixamos o nosso posto na marina por volta das 11:00h da manhã. É maravilhosos voltar a navegar. Estamos muito felizes... a partida em meio aos mais de 200 veleiros que participam da ARC foi emocionante. Todos juntos e na mesma direção, ao menos neste começo. Era um emaranhado de barcos, mas todos dividindo praticamente o mesmo espaço com muito respeito e segurança. Bastante vento e bastante mar impulsionando a todos e de maneira bastante veloz. A nossa frente, lados e, até mesmo atrás de nós, centenas de outros barcos. Já nas primeiras horas de navegação, o distanciamento era visível. Ao cair da tarde, o número de embarcações que se podia avistar já tinha diminuído cerca de 25%. Assim que se chega ao Sul da Ilha de Gran Canária, cada barco começa a seguir a rota de acordo com a estratégia adotada. Afinal, todos estão competindo e, vence o melhor em tudo... desde o barco, até a tripulação e estratégia.

O fim de tarde nos presenteou com um belo peixe, o único deste trajeto, preparado a moda japonesa e regado a um bom cálice de vinho branco. Nossa rota era independente, fazíamos o caminho de casa, competíamos apenas com o nosso próprio tempo. A esta altura, já sabíamos que não chegaríamos para o Natal em casa. Entretanto, ainda alimentávamos esperanças de chegar a tempo de festejar o reveillon. Veremos !!!

Estamos fazendo uma rota paralela a costa africana e diretamente para a Ilha do Sal, no arquipélago de Cabo Verde. A distância que nos separa do nosso próximo destino são 850 milhas náuticas, a maior já percorrida por nós nesta viagem, sem nenhuma parada. Previsão de bons ventos e mar calmo... serão 6 a 8 dias de navegação.

Já nas primeiras 24 horas conseguimos fazer 180 mn. O Cascalho voou baixo... os ventos alísios estavam realmente constantes e nos empurravam em direção ao sul. Talvez isso nos explique um pouco porque os antigos pensavam que logo abaixo deveria existir um precipício onde o mundo acabava: velejar assim, nesta velocidade, com mar e ventos a favor !!! 

Cerca de 48 horas após termos iniciado esta etapa, já estávamos entrando em águas tropicais: passamos o Trópico de Cancêr, na latitude 23° 26′ 16"N, os ventos continuavam soprando forte, o que era muito bom, mas as saudosas ondas longas do Atlântico não apareceram. Durante praticamente todo este trajeto, a navegação foi mais difícil, o mar que nos jogava de um lado para o outro e as ondas, que apesar de não serem altas, batiam violentamente contra o casco do Cascalho nos assustando um pouco. Ao final do quarto dia, estávamos já um pouco estressados. Afinal, o que se quer é sempre bons ventos com mar calmo !!! O que nos alegrava, é que esta situação nos tinha feito navegar muito bem e, chegaríamos na Ilha do Sal ainda no domingo. Faltava pouco.

Muitos nos perguntam se não sentíamos medo... é claro que sim !!! Afinal, o medo é um sentimento difícil de controlar. Ele vem muito mais em função do desconhecido, por não podermos nos preparar para enfrentar o que vem. Mas, acima de tudo, tínhamos muita confiança nos estudos meteorológicos que fizemos para planejar a travessia, no conhecimento da nossa tripulação e, no barco e nos seus equipamentos de segurança. Apesar do desconhecido, apesar do medo, nos sentíamos seguros. 

Apesar das condições do mar, mais esta etapa foi concluída com sucesso... 850mn, percorridas em apenas 125 horas, com uma média de 6.8 nós ao longo de todo o trajeto. A bordo, muita alegria e um clima de amizade entre todos os tripulantes. Muito bom ter mais pessoas a bordo: conversas, filosofias, poesia, risadas, canastra com direito a campeonato, divisão de tarefas, especialmente os turnos de navegação noturna, enfim, um estilo de vida compartilhado por cinco pessoas em sintonia. Nem o céu cinza, nem o mar mexido nos tiraram a alegria... e, ao chegarmos no Sal, em Cabo Verde um novo e belo mundo nos esperava... heis o glamour da vida que escolhemos para viver !!!

De Gibraltar à Las Palmas, Ilhas Canárias

"A Rocha" de Gibraltar ficando para trás...
Águas calminhas.
Tráfego intenso....
...de gigantes dentro do canal.
Dois continentes e dois mares... África a esquerda, águas do canal e Espanha a direita, num mesmo click !!!
Pequena flotilha aproveitando o bom tempo para passar o canal.
Muito frio... e chuva vindo na nossa direção.
Sorte... passou perto mas não nos pegou.
Melhor assim !!!
Depois das ondas gigantes provocadas pelo encontro das águas dos dois  mares. Tão assustador que nem fizemos fotos.
Proa em direção ao Marrocos.
Farol em terras africanas.
Por do sol... fogo caindo do céu !!!
"Presentes" no primeiro dia Atlântico.
Sashimi...
ou com tomate, cebola e laranja. Delícia !!! 
Primeiros golfinhos do Atlântico, sempre uma grande alegria !!!
21 de novembro de 2012: través com Marrocos. Falta muito ainda !!!
Por do sol... a cada dia um novo espetáculo.
Amanhecer... pescar pescar para poder almoçar !!!
Terra à vista !!! Arquipélago das Ilhas Canárias. Esta é Lanzarote.
23 de novembro... mais um belo amanhecer !!! Falta pouco agora !!!
Golfinhos celebrando conosco... mais uma etapa concluída com sucesso !!!
Chegamos !!!
Cidade de mastros... nós também estamos aqui !!!

18 de novembro de 2012
Latitude 36°14'897"N e Longitude -005°35'526"W
07:30h

Acordamos cedinho e conferimos a previsão do tempo: tudo se confirmava. Podemos partir hoje... a expectativa é grande, afinal será a etapa de maior distância a ser percorrida até agora. De Gibraltar até Las Palmas, a capital da Ilha Gran Canária, são aproximadamente 750 milhas náuticas e, dependendo das condições de vento e mar, poderá levar até 8 dias para percorrê-la. Para o Cascalho esta será a primeira experiência de navegação no Atlântico Norte, assim como para Mauriane. O comandante era o único a já ter navegado por estes mares.

Antes de partir, aproveitamos para estocar alguns litros de diesel a mais. Ao todo, entre tanques e reservas, partimos de Gibraltar com 480 litros de combustível.  

Tudo pronto... hora de partir !!! Atlântico, aí vamos nós !!! A soltar nossa amarras, dois simpáticos frentistas do posto de combustível. Eles, como tantos outros, admirando nossa coragem, invejando nossa disponibilidade e desejando boa viagem.

A medida que "A Rocha" ia ficando para trás, o primeiro grande desafio desta etapa aproximava-se mais e mais: vencer o Estreito de Gibraltar com suas correntes muito fortes e que sofrem grandes variações ao longo do dia, sendo palco de inúmeros acidentes com embarcações. O estreito é uma separação natural entre o Mar de Alborão, no Mediterrâneo e o Golfo de Cadiz, no Oceano Atlântico, e entre dois continentes: a Europa e a África. Ao Norte estão a Espanha e Gibraltar. Ao Sul, Marrocos e Ceuta (território espanhol na África). O estreito é a única comunicação entre Atlântico e Mediterrâneo, sua profundidade varia de 280 a quase 1.000 metros e a menor distância entre os dois continentes é de apenas 14,4 Km. Tem uma importância fundamental em termos de comércio marítimo, já que cerca de 85.000 navios passam por lá anualmente.

Meio dia. O horário era perfeito. Partimos no tempo exato para aproveitar o fluxo favorável de maré. Dentro do Estreito de Gibraltar geralmente tem uma forte corrente marítima no sentido oeste-leste provocada pelo fluxo de água atlântica que desemboca para dentro do mediterrâneo para contrabalançar a quantidade de água perdida por evaporação. Além disso, as diferenças de variação entre maré alta e baixa entre os dois, também é muito grande: no Atlântico as variações são bem maiores quando comparadas ao Mediterrâneo. Esta correnteza pode chegar a uma velocidade de até 3 nós. Se tiver vento contrário então, é difícil sair do lugar. Entretanto, quando a maré esta baixando, o movimento de água da maré vai contra a corrente, já que no Atlântico  a maré baixa bem mais e, portanto, a correnteza diminui em alguns nós. Quando passávamos pelo canal, as condições eram ideais: pouco vento de oeste e corrente contrária de pouco mais de 1 nó. Partimos a motor, 2000 giros que nos davam uma velocidade de 6 nós. Mais tarde, usaríamos também as velas mestra e genoa.

A zona do canal é dividida em dois corredores de tráfego bem separados: a direita , vizinho a costa espanhola se sai para o Atlântico; a esquerda, costa marroquina, se entra no Mediterrâneo. Navegamos nos mantendo a cerca de 2 milhas da costa espanhola e prosseguimos assim até a altura de Algesiras, quando nos preparamos para atravessar o corredor de navegação e ir em direção ao Marrocos. Qual não foi a nossa surpresa... enfrentamos por cerca de 1:30h as maiores ondas de toda a viagem. Ondas de 6 a 8 metros de altura nos colocavam lá em cima num segundo e, no outro, iniciava-se uma descida insana até encontrar a água de novo. Apenas um suspiro e chegava outra onda... e assim foi. Era o encontro das águas do Mediterrâneo com as águas do Atlântico. Turbulento, muito turbulento por sinal. Tínhamos acabado de almoçar e o mal estar foi geral... barco, cabeça, estômago, labirinto. Entretanto, o Cascalho e sua tripulação se mostraram corajosos e destemidos. Atravessado este corredor, voltamos a navegar em águas calmas e, até onde nossa vista pode alcançar, as ondas atrás de nos continuavam bem grandes. Por volta das 18:30h desligamos os motores e seguimos só a vela. Tínhamos deixado para trás as 35 milhas náuticas do tão destemido estreito que nos assustou sobremaneira. A nossa frente, um belíssimo por do sol, já com paisagens africanas. Navegamos no Atlântico a 6 nós e com rota de 245° diretamente para o arquipélago das Ilhas Canárias.

A noite foi tranquila e no dia seguinte pudemos perceber bem o que era navegar no Atlântico: ao redor de nós, ondas longas e suaves nos impulsionando sempre mais e mais, com muita doçura e sempre a favor dos ventos constantes de nordeste. Acreditamos serem estes os famosos ventos alísios portugueses. Mar e céu azuis. No céu apenas algumas nuvens brancas. Neste dia o Atlântico se mostrou muito rico e generoso: nos deu dois peixes, um bonito e um dourado, vimos uma tartaruga (a única de toda a viagem) e recebemos a visitas dos três primeiros golfinhos do Atlântico para alegrar o nosso fim de tarde. No nosso terceiro dia de navegação pelo Atlântico, a temperatura da água e do ar já começaram a aumentar, tornando tudo muito mais agradável. O sol passou a ser o nosso companheiro de todos os dias, desde o amanhecer até o anoitecer.

Chegamos ao quarto dia de navegação - 21 de novembro, sem nenhuma novidade: nada de peixes ou golfinhos, nem embarcações, nem terra a vista, nem chuva e nem vento. Tentamos usar a vela genaker, mas o vento era insuficiente, tivemos então que motorar muito neste trecho.

Terra a vista !!! Finalmente em 22 de novembro, por volta do meio dia, avistamos o primeiro grupo das Ilhas Canárias: Montana, Graciosa e Lanzarote. Porém, nós passamos direto. Afinal, o que são 115 milhas a mais para quem já navegou mais de 600?

23 de novembro nos presenteou com um maravilhosos nascer do sol e já por volta das 10 da manhã avistamos Gran Canaria, a nossa ilha. Minutos depois, golfinhos. Muitos golfinhos que brincaram na nossa proa por aproximadamente 40 minutos celebrando com nós o sucesso de mais uma etapa da nossa viagem. Fomos diretamente ao Porto de Las Palmas, uma verdadeira cidade de mastros, onde ancoramos ao meio dia. 750 mn percorridas em 120 horas.

Fechávamos assim, com muito orgulho, o nosso batismo: somos agora velejadores oceânicos!!!